Os estados para ficar de olho nas eleições nos EUA

Os estados para ficar de olho nas eleições nos EUA

novembro 2, 2020 0 Por Romário Nicácio

(ANSA) – Às vésperas da eleição presidencial de 3 de novembro nos EUA, os candidatos Donald Trump e Joe Biden fazem uma maratona de comícios por estados do chamado Meio-Oeste e pela Pensilvânia, indicando onde deve ser decidido o próximo ocupante da Casa Branca.

Em 2016, a democrata Hillary Clinton teve quase 3 milhões de votos a mais que Trump em âmbito nacional, mas derrotas por menos de um ponto de diferença em três estados importantes acabaram dando uma improvável vitória a um magnata tido até então como azarão.

Para saber onde ficar de olho durante a apuração da votação de 3 de novembro, primeiro é necessário entender o sistema eleitoral americano. O presidente dos EUA não é escolhido por voto direto, mas sim por um colégio eleitoral formado por 538 delegados distribuídos por todas as unidades da federação de acordo com o tamanho de sua população.

Para ser eleito, um candidato precisa assegurar pelo menos 270 delegados nesse colégio eleitoral. “Basicamente, o que acontece é isso: não há uma eleição federal nos EUA, há 50 eleições estaduais, e esses resultados são agregados no colégio eleitoral”, diz Bruno Reis, professor de ciência política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em entrevista à ANSA.

Com exceção de Maine e Nebraska, todas as unidades da federação adotam o sistema “winner-take-all” (“o ganhador leva tudo”), que dá ao candidato mais votado todos os delegados daquele estado, independentemente do percentual de seus adversários.

Meio-Oeste

Dos 12 estados do Meio-Oeste americano, Trump derrotou Hillary em 10, sendo que em dois deles (Michigan e Wisconsin) o triunfo foi por diferença inferior a um ponto percentual, o que acabou sendo determinante para sua eleição.

Em 2020, no entanto, Biden é favorito destacado em Illinois (20 delegados), e a disputa está aberta em outros estados importantes, como Ohio (18), Michigan (16), Minnesota (10), Wisconsin (10) e Iowa (seis).

De acordo com a média das pesquisas calculada pelo site Real Clear Politics, Biden tem vantagem segura no Michigan (+6,2 pontos), em Minnesota (+4,7 pontos) e no Wisconsin (+6,0 pontos), está praticamente empatado com Trump em Ohio (+0,2) e Iowa (-0,7).

O chamado “Rust Belt” (“Cinturão da Ferrugem”) era um reduto democrata relativamente confiável até 2016, quando Trump conquistou o eleitorado local com um discurso sectário e antiglobalização que tem forte apelo em um operariado branco ressentido com a questão racial e a fuga de indústrias para países mais baratos, especialmente a China.

“Em 2016, Trump não fez campanha pró-mercado. Ele fez campanha com apelo a um país nostálgico de um período de potência, uma espécie de fantasia, não é exatamente o discurso da coalizão neoliberal e evangélica que estava por trás dos Bush”, explica Reis.

No entanto, passados quatro anos, o presidente tem de lidar com dois desafios no Cinturão da Ferrugem: ele não é mais uma novidade, tendo às suas costas todo o desgaste de um mandato conturbado, e Biden não é exatamente um representante do meio liberal-universitário da elite da costa leste, como Hillary.

“Trump ganhou por um fio de cabelo em 2016, seria perfeitamente normal se ele perdesse. Era um evento improvável – não impossível -, e aconteceu”, acrescenta o professor da UFMG.

Já para o cientista político Márcio Coimbra, coordenador da pós-graduação em relações institucionais e governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie de Brasília, o estado-pêndulo tradicionalmente mais importante é Ohio, que representa uma espécie de microcosmos do país.

“Ohio consegue traduzir os Estados Unidos dentro de seus limites territoriais. Tem uma zona mais pobre, uma zona mais rica, uma zona mais industrial, uma zona falida, tem um pouco de tudo. É como Minas Gerais para o Brasil. Para onde vai Ohio, geralmente, é para onde vai a eleição presidencial”, ressalta.

Pensilvânia e Flórida

O terceiro estado onde Trump venceu por menos de um ponto em 2016 é a Pensilvânia (20 delegados), terra natal de Biden, que lidera com quatro pontos sobre o republicano na média do RCP.

Ainda na porção oriental dos EUA, a disputa também se concentra na Flórida (29 delegados) – que já foi decisiva para a apertada e contestada vitória de George W. Bush em 2000 -, na Carolina do Norte (15) e na Geórgia (16), reduto republicano desde 1996.

“Se Trump perder na Flórida, ele perde a eleição, porque teria de obter vitórias sucessivas em outros estados-pêndulo para compensar os 29 eleitores da Flórida no colégio eleitoral”, diz Coimbra, do Mackenzie, que prevê que o estado será mais importante até que Ohio na disputa deste ano.

Biden lidera a média das pesquisas na Flórida por apenas 0,7 ponto, o que projeta uma votação acirrada.

Texas

Segundo estado com mais delegados no colégio eleitoral, com 38, o Texas é um dos principais bastiões republicanos desde 1980, ano da primeira vitória de Ronald Reagan, mas, pela primeira vez em décadas, o Partido Democrata tem conseguido ser competitivo na disputa presidencial.

Trump ainda é favorito para levar o estado, mas Biden aparece apenas 2,3 pontos atrás na média das pesquisas calculada pelo Real Clear Politics, fazendo com que as projeções atuais da imprensa americana considerem a disputa em aberto, algo impensável anos atrás.

Para Bruno Reis, da UFMG, isso é reflexo do “embranquecimento” do Partido Republicano e da retórica “antimigrantes” de Trump, o que aliena o numeroso eleitorado latino no Texas. “Para cortejar um voto que era fielmente democrata na região dos grandes lagos [Michigan, Ohio, Pensilvânia, Wisconsin], ele teve de se distanciar ou complicar seu acesso junto ao eleitorado hispânico, que se concentra sobretudo no sul, incluindo o Texas”, explica.

Isso também ajuda a entender o empate no Arizona e a vantagem de Biden em Nevada, dois estados com grande contingente de latinos.