Bacurau e a Hermenêutica do Paranauê

Bacurau e a Hermenêutica do Paranauê

dezembro 5, 2019 0 Por Felipe Jordan

Sonia Braga, definiu o diretor de Bacurau, Kleber Mendonça Filho, como uma mensagem na garrafa. Uma mensagem para o futuro.

A misteriosa reunião em que o povo de Bacurau, esclarece o que está acontecendo e elabora uma estratégia para contra-atacar os forasteiros, talvez seja uma dessas mensagens à que ela se refere.

Logo após a sequência dos ataques – que culminam com a morte de tantas pessoas da comunidade – a cidade se reúne.

Neste momento, eles conversam, identificam os adversários e suas fragilidades. Recuperam ferramentas que outrora foram cruciais nos “cases de sucesso” do seu povo e definem um ataque silencioso e mandingueiro.

Apesar desta reunião aparecer na integra, o espectador sequer sabe que está vendo-a. E por isto reage com SURPRESA quando o “plano de ação” da cidade vem à tona.

Isto é, em cenas como; quando o casal de naturistas dispara um super tiro na cara do fraco, estrangeiro gozador. Ou até quando a sutil Água de Beber que Domingas (Sonia Braga) oferece ao camaradinha.

O interessante é que estas cenas não surpreende os sucessores, antecessores e discípulos de mestres como São Bento, Bimba e outros grandes homens de movimento. Pois estes entendem claramente todos os detalhes da reunião de planejamento que se deu através de uma linguagem praticada semanalmente por pessoas orgulhosamente atentas aos milagres do seu povo. Uma irmandade.

Estudei essa linguagem durante alguns meses. Aprendi a balbuciar os músculos e até gaguejei algumas frases em público. Porém, diferente do latim, suas inclinações e declinações ultrapassam o vocabulário vulgar e se espalham por tacos de arame, cabaças e barrigas.

Apesar da evidente e saudosa empatia do meu mestre para comigo, muitas rodas do tempo seriam necessárias para que ele pudesse confiar à mim qualquer um dos mais superficiais segredos do seu idioma de luta.

Ainda assim, o pouco que sei, foi suficiente para me colocar em estado de alerta, quando – no terreiro regional – o personagem Plínio (Wilson Rabelo) faz uma volta ao mundo, explica à cidade de Bacurau cada detalhe do que deverá ser feito e finaliza a reunião martelando as decisões tomadas.

E eis uma das mensagens na garrafa, do Kleber Mendonça Filho para um Brasil que escutará um Paranauê e que saberá decodificar a hermenêutica do Camarada.