Nesta sexta-feira (19), o termo de colaboração do empresário Joesley Batista, da JBS, foi divulgado na imprensa. Nele, o empresário cita duas ‘contas-correntes’ de propina no exterior, tendo os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff como beneficiários.
Joesley informou à Procuradoria-Geral da República (PGR) que as duas contas somaram juntas US$ 150 milhões no ano de 2014. Ainda segundo o empresário, o ex-ministro Guido Mantega operava as contas. No documento, divulgado pelo jornal “Estadão”, o delator informa que a conta de Lula foi destinada em 2009, enquanto que a de Dilma foi destinada no ano seguinte.
No depoimento, o empresário relatou uma reunião com Mantega, no final de 2010, onde ele pediu que uma nova conta destinada a Dilma fosse aberta. Até então, apenas a conta destinada a Lula estava aberta. “O depoente perguntou se a conta já existente não seria suficiente para os depósitos dos valores a serem provisionados, ao que Guido respondeu que esta era de Lula, fato que só então passou a ser do conhecimento do depoente”, contou o empresário. “O depoente indagou se Lula e Dilma sabiam do esquema, e Guido confirmou que sim”.
Ainda segundo Joesley, para a construção da planta de celulose da Eldorado, foi feito um financiamento de R$ 2 bilhões em maio de 2011. Neste propósito, Mantega teria tomado a frente junto a Luciano Coutinho (presidente do BNDES na época) ‘para que o negócio saísse’.
“A operação foi realizada após cumpridas as exigências legais”, disse Joesley. “Sempre percebeu que os pagamentos de propina não se destinavam a garantir a realização de operações ilegais, mas sim de evitar que se criassem dificuldades injustificadas para a realização de operações legais”.
O empresário ainda contou que depositou crédito de US$ 30 milhões em nova conta no exterior, segundo ele, ‘a pedido de Mantega’, por conta do negócio. “O depoente, nesse momento, já sabia que esse valor se destinava a Dilma; que os saldos das contas vinculadas a Lula e Dilma eram formados pelos ajustes sucessivos de propina do esquema BNDES e do esquema-gêmeo, que funcionava no âmbito dos fundos Petros e Funcef; que esses saldos somavam, em 2014, cerca de US$ 150 milhões”.
Joesley ainda informou que passou a ser chamado por Mantega semanalmente para tomar conhecimento de políticos e partidos que ‘deveriam receber doações de campanha a partir dos saldos das contas’. “A primeira lista foi apresentada em 4 de julho de 2014 por Guido ao depoente, no gabinete do Ministro da Fazenda no 15º andar da sede do Banco do Brasil em São Paulo, e se destinava a pagamentos para políticos do PMDB; que a interlocução com políticos e partidos políticos para organizar a distribuição de dinheiro coube a Ricardo Saud, Diretor de Relações Institucionais da J&F, exceção feita a duas ocasiões”, relatou.
O depoimento ainda relata um encontro em outubro de 2014, no Instituto Lula, entre Joesley e Lula. Na ocasião, o empresário relatou ao petistas sobre as doações oficiais da JBS, que teriam ultrapassado R$ 300 milhões. “Indagou se ele (Lula) percebia o risco de exposição que isso atraía, com base na premissa implícita de que não havia plataforma ideológica que explicasse tamanho montante; que o ex-presidente olhou nos olhos do depoente, mas nada disse”, contou.
O empresário ainda relatou uma audiência com Dilma. “Dilma recebeu o depoente no Palácio do Planalto; que o depoente relatou, então, que o governador eleito de MG, Fernando Pimentel, estava solicitando, por intermédio de Edinho Silva, R$ 30 milhões, mas que, atendida essa solicitação, o saldo das duas contas se esgotaria; que Dilma confirmou a necessidade e pediu que o depoente procurasse Pimentel”.
“Pimentel orientou o depoente a fazer o pagamento por meio da compra de participação de 3% na empresa que detém a concessão do Estádio Mineirão; que afora essas duas ocasiões, Edinho Silva, então tesoureiro da campanha do PT, encontrava-se, no período da campanha de 2014, semanalmente com Ricardo Saud e apresentava as demandas de distribuição de dinheiro; que Ricardo Saud submetia essas demandas ao depoente, que, depois de verificá-las com Guido Mantega, autorizava o que efetivamente estivesse ajustado com o então ministro da Fazenda.”
A assessoria de imprensa de Lula emitiu uma nota sobre a citação:
“Verifica-se nos próprios trechos vazados à imprensa que as afirmações de Joesley Batista em relação a Lula não decorrem de qualquer contato com o ex-Presidente, mas sim de supostos diálogos com terceiros, que sequer foram comprovados.
A verdade é que a vida de Lula e de seus familiares foi – ilegalmente – devassada pela Operação Lava Jato. Todos os sigilos – bancário, fiscal e contábil – foram levantados e nenhum valor ilícito foi encontrado, evidenciando que Lula é inocente. Sua inocência também foi confirmada pelo depoimento de mais de uma centena de testemunhas já ouvidas – com o compromisso de dizer a verdade – que jamais confirmaram qualquer acusação contra o ex-Presidente.
A referência ao nome de Lula nesse cenário confirma denúncia já feita pela imprensa de que delações premidas somente são aceitas pelo Ministério Público se fizerem referência – ainda que frivolamente – ao nome do ex-Presidente.
Cristiano Zanin Martins e Roberto Teixeira”
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