Infância roubada: como reconhecer uma criança que está sofrendo abuso sexual?

Infância roubada: como reconhecer uma criança que está sofrendo abuso sexual?

agosto 24, 2020 0 Por Rafael Nicácio

Estupro e pedofilia são crimes que demonstram fragilidades sociais no quesito proteção à infância e adolescência contra a violência sexual no mundo. Neste contexto, o caso da menina de 10 anos que sofria abuso sexual do tio, desde os seus seis anos de idade, engravidando no estado do Espírito Santo, provocou discussões e revolta em todo o país nos últimos dias. A notícia chocou, gerando indignação, decepção, raiva e evidenciou uma violência contra crianças e jovens que, consequentemente, perdem o direito a uma vivência infantil saudável e equilibrada.

Infelizmente estatísticas mostram o crescimento da cultura do estupro, onde 42% dos casos registrados em todo o Brasil ocorrem dentro das casas das vítimas e apenas 16% dos abusadores são desconhecidos das crianças e/ou jovens abusados. Além disso, 66% das vítimas são atacadas inicialmente entre os quatro e seis anos de idade. Estes dados demonstram a importância da escuta, do cuidado e do acolhimento dessas crianças e jovens – no sentido de evitar que possam ser marcados por traços de crueldade e perversidade que, certamente, provocam mudanças severas em sua percepção de valores e na forma como possam lidar com suas dores e com o mundo a sua volta, possibilitando ainda o transporte do trauma sofrido para a vida adulta.

A infância é um período da vida em que se dá o fortalecimento da personalidade, do caráter e dos valores do indivíduo. Uma etapa caracterizada por aprendizados, zelo familiar, brinquedos, descobertas e o despertar de sentimentos e emoções confusas e incompreendidas. Um universo marcado por grandes alterações se for abalado por abuso. Um crime silencioso que anula o sorriso e rouba a meninice, alimentando em muitas vítimas a sensação de culpa, inferioridade, fobias e dor.

Diante destes aspectos, a violência sexual acarreta vivências traumáticas irreparáveis em suas vítimas. A começar pela grande dificuldade em manifestar verbalmente todo o sofrimento. Nestes casos, a melhor maneira de reconhecimento dos sinais do abuso é buscar estar atento aos vestígios apresentados. Pois, diferentemente do que se pensa, as crianças dão pistas de que algo está fora da normalidade. Podem passar a apresentar distúrbios do sono (terrores noturnos), episódios de anorexia ou bulimia, baixa autoestima, queda no rendimento escolar ou dificuldade de aprendizado e concentração, isolamento social, fobias, agressividade, crises de choro constantes e inesperadas, bem como episódios de enurese (urinar na cama) mesmo que após superado anteriormente, inquietação fora do normal, comportamentos hipersexualizados precocemente e até déficit de linguagem.

Crianças e adolescentes expostos a situações de violência sexual podem exteriorizar desordens psíquicas, como: depressão, pensamentos suicidas, ansiedade generalizada, bloqueio sexual e o uso abusivo de drogas. Acarretando, inclusive, prejuízos evidentes na maturidade de suas relações interpessoais e afetivas. Além disso, a percepção da realidade e a sua capacidade de confiança em adultos poderá apresentar sinais de fragilidade. Os reflexos do abuso sexual no desenvolvimento biopsicossocial da criança e do adolescente devem ser levados em conta por toda a sociedade, a fim de promover intervenções psicológicas urgentes ao favorecimento da superação dos traumas sofridos.

Porém, existem algumas ações que podem contribuir para a prevenção do abuso e da exploração sexual dos indefesos. São elas: o exercício na eliminação, por parte dos responsáveis, do medo de conversar com as crianças sobre suas partes íntimas. Identificar e saber nomear o que for íntimo, é fundamental para que a criança possa conseguir verbalizar quando algo fora do comum acontecer. Outro ponto importante é poder ensinar para a criança quais os limites do seu corpo, mostrando que não se pode permitir que toquem suas partes íntimas e que tocar partes íntimas de outra pessoa, conhecida ou não, também não é permitido. Além disso, incentivar a comunicação e o diálogo – provocando e promovendo um ambiente de segurança e confiança – podem ser grandes estímulos para que a criança não se intimide ao contar qualquer coisa para seus responsáveis ou para quem ofereça a ela proteção e resguardo.

Contudo, se faz necessário, alimentar a autoestima, pois quando o indivíduo se conhece, se percebe e se ama, mantendo uma relação saudável com seu corpo, facilmente conseguirá negar situações desagradáveis e desconfortáveis para si. O medo de não ser aceito não fará parte de seu cotidiano e sua personalidade ganhará força e autonomia para se posicionar diante de atitudes que possam vir a violar seus limites e sua individualidade.

Infância roubada como reconhecer uma criança que está sofrendo abuso sexual

A identificação dos abusos nem sempre é uma tarefa fácil, mas esteja atento a todos os indícios. As mudanças comportamentais acendem o botão vermelho e apontam a irritação, as dores de cabeça constantes, rebeldias, raivas, depressão, problemas escolares introspecções, dentre outras alterações, como alertas evidentes de que algo está errado. Pode ser um pedido de socorro inconsciente, expondo uma infância marcada por traços de crueldade.

Portanto, toda forma de maus tratos possuí uma dinâmica de perversões ilimitadas, que se manifesta como um horror contínuo para suas vítimas. O abuso sexual praticado contra crianças e adolescentes é, sem dúvida, um fenômeno que envolve muitas variáveis e complexidades, onde o dano psíquico está relacionado a fatores como: idade do início do abuso; duração do abuso; diferença de idade entre abusado e abusador; o grau de violência; grau de parentesco entre eles e o grau de segredo intrínseco no ato violento. Mas independente de tudo isso, uma coisa é certa: o impacto emocional e social será devastador na vida da vítima de abuso sexual na infância e/ou adolescência.

A mistura de sentimentos e dúvidas marcará as funções intelectuais, criativas e mentais dessa criança para sempre. Um composto de culpa, dor e desamparo fortalecido por uma infância roubada e destruída, como no caso da menina de 10 anos do Espírito Santo que, amparada pela lei, conseguiu o direito de interromper a gravidez fruto da violência sofrida por pelo menos quatro anos seguidos. Por todo o exposto, o acompanhamento e amparo psicológico, médico e social se faz extremamente necessário na tentativa de resgatar a autoestima, a confiança e a capacidade de sonhar de uma criança ceifada pela crueldade sórdida de um adulto perverso e desumano.


Artigo especial escrito pela Dra. Andréa Ladislau, que é Psicanalista, Doutora em Psicanálise, Membro da Academia Fluminense de Letras – cadeira de numero 15 de Ciências Sociais, Administradora Hospitalar e Gestão em Saúde e Pós Graduada em Psicopedagogia e Inclusão Social.