Fátima Bezerra critica criação do programa “Escola Sem Partido”
Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Fátima Bezerra critica criação do programa “Escola Sem Partido”

novembro 16, 2016 0 Por Romário Nicácio

Em audiência pública realizada nesta quarta-feira (16) sobre o programa “Escola Sem Partido”,  a senadora Fátima Bezerra (PT-RN) avaliou que os apoiadores da proposta são “intolerantes e sem argumentos”. Ela destacou a importância da discussão na Comissão de Educação (CE), salientando, porém, que todos os debatedores que compareceram à audiência foram unânimes contra a proposta (PLS 193/2016).

De acordo com a senadora, o “Escola Sem Partido” é um projeto inconstitucional que reduz a liberdade de expressão dos professores e impede que o ambiente educacional reflita “a vida como ela é”.

“A escola não pode estar dissociada do contexto onde ela está inserida e, portanto, ela não pode se omitir do debate, seja o debate no que diz respeito às questões de gênero, de orientação sexual, de religião, de raça e de etnia”, disse.

Fátima Bezerra criticou o conjunto de propostas que, em sua avaliação, promove retrocesso na educação brasileira. A senadora manifestou temor de que a emenda à Constituição que limita os gastos públicos (PEC 55/2016) gere um impacto “violento” contra as universidades e reduza o ensino ao sucateamento. Ela acrescentou críticas à reforma curricular no ensino médio e cobrou uma política de valorização dos professores.

Proposto por Fátima, vice-presidente da comissão, o debate analisou o PLS 193/2016, do senador Magno Malta (PR-ES), que inclui o programa Escola sem Partido na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, e o site criado pelo movimento em favor do programa.

Deborah Duprat, subprocuradora-geral da República, disse que o projeto tenta conquistar adeptos com um falso discurso da neutralidade da educação. “Somos todos seres inseridos nos nossos espaços sociais e nunca haverá uma ideia ou valor neutro, pois já traz em si a percepção de algo valioso sendo, portanto, objeto de defesa”, disse.

Como afirmou a subprocuradora, a defesa da neutralidade política, ideológica e religiosa contida no projeto impede o pluralismo de ideias das escolas e a liberdade dos educadores, o que fere a Constituição Federal. Ela citou manifestações do Ministério Público e da Advocacia Geral da União, pela inconstitucionalidade do texto.

Retrocesso

Para as senadoras Regina Sousa (PT-PI) e Gleisi Hoffmann (PT-PR), o texto revela o avanço de valores conservadores e ameaça direitos sociais conquistados pela sociedade brasileira.

“Estamos em um momento em que temos que ter muita resistência, pois não é um jogo apenas de valores da sociedade, mas também de interesses econômicos. Escola sem Partido não é apenas para não se buscar consciência, mas para formar mão de obra para o mercado, para que as pessoas trabalhem e produzam sem incomodar o status quo”, afirmou Gleisi Hoffmann.

A intenção do projeto de reduzir conquistas e impedir a liberdade de discussão nas escolas também foi apontada pelos representantes da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), Camila Lanes, e da União Nacional dos Estudantes (UNE), Iago Montalvão.

“O projeto é parte de uma ofensiva para impor uma formação acrítica, tecnicista e não emancipatória”, disse Montalvão.

A opinião foi compartilhada por Cléo Manhas, representante da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, para quem o movimento Escola sem Partido visa combater conquistas sociais como a igualdade de gênero, a liberdade religiosa e os direitos de homossexuais.

Negócio

Na avaliação de Fernando de Araújo Penna, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), o programa é uma ameaça à educação democrática, na medida em que tenta reduzir o trabalho dos professores a uma relação de consumo.

“O professor é visto como um mero prestador de serviço — observou Penna, mostrando ainda que os defensores do programa divulgam, nas redes sociais, mensagens com conteúdo ofensivo a professores e estudantes.”, disse.

Manifestação

Apoiadores do programa chegaram a interromper o debate por alguns minutos, gritando palavras pela aprovação do PLS 193/2016, e foram retirados do plenário onde acontecia a audiência pública.

Na presidência do debate, Fátima Bezerra lamentou que o advogado Miguel Nagib, um dos propositores do programa Escola sem Partido, tenha recusado o convite para participar do debate promovido pela CE.

Do Portal N10 com Agência Senado

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