O Rei Da Lambada — Nova Amsterdã 08

O Rei Da Lambada — Nova Amsterdã 08

Voltado para a cultura, ficção e fantasia, o trabalho a seguir é fruto de uma parceria entre o Dinastia N e o autor Antônio Gomes. A iniciativa busca explorar mais o universo das ideias do escritor, através desta coletânea de contos. As obras serão publicadas semanalmente as terças-feiras. Na oitava publicação da série Nova Amsterdã, o conto apresentado será: O Rei Da Lambada.

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O CHEIRO DO CHÁ ERA MARAVILHOSO, em contrapartida à vista do apartamento em São Paulo era cinzenta e barulhenta e, naquela noite, a única coisa que chamava atenção eram as inúmeras luzes dos carros no engarrafamento. Marina estava entediada, então resolveu que deveria abandonar a procrastinação e verificar os relatos via e-mail para o próximo vídeo que pretendia subir em seu canal no YouTube. Brasil Assombrado havia começado como um pequeno projeto em um trabalho de escola sobre o folclore brasileiro há seis anos e estourou entre os amigos que a incentivaram a continuar e hoje já alcançava a faixa de 2.195.874 inscritos com um acumulo de 393.178.041 de visualizações e 3.205 vídeos postados sobre os mais diversos assuntos do meio cientifico e sobrenatural.

Dividia os vídeos com o agora esposo, Carlos, mas para o quadro em que lia os relatos de experiências sobrenaturais ou inexplicáveis enviados pelos inscritos e fãs que acompanhavam o canal, ela fazia sozinha. Com a caneca de chá em mãos, caminhou até o notebook sobre a mesa da cozinha e, acompanhada de alguns biscoitos, abriu o e-mail do canal em busca dos relatos.

O primeiro chamou sua atenção e até a fez rir. O Rei da Lambada, tinha escrito. Um nome realmente interessante, Marina não sabia o que esperar de um relato que ela presumia ter algo de sobrenatural com um nome como aquele. E foi apenas pela curiosidade que clicou e o abriu, logo correndo os olhos pelas linhas…

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O REI DA LAMBADA (relato sobrenatural)

Regina                          sex, 12 de out de 2018 15:29 (Há 2 dias)

Olá, Marina, espero que esteja tendo um bom feriado, ainda mais um prolongado como esse. Me chamo Regina e sou professora em uma escola na capital do Rio Grande do Norte. O que tenho para relatar tem vivido em meu passado por muito tempo e sempre me vi assombrada pelo acontecimento. Meu filho mais velho apresentou o canal de vocês e resolvi enviar está história para ver se mais alguém teve experiências similares a essa, pois não acredito que o que houve foi algo isolado.

Eu tinha 20 anos quando tudo aconteceu. Aqui em Nova Amsterdã, cidade onde nasci e crio meus filhos, nos anos 80 e 90, a lambada era o ritmo que enchia as boates enquanto os bares eram lotados do tradicional forró nordestino. Minhas amigas e eu éramos inseparáveis, desde a escola até a faculdade e não era diferente nas festas. Dividíamos um pequeno apartamento perto da UFRN e trabalhávamos meio período e também com a ajuda dos nossos pais conseguíamos nos manter.

A semana era corrida então quando o final de semana chegava era nosso ponto de divertimento e gostávamos de fugir dos trabalhos da faculdade dançando enquanto conseguíssemos manter as pernas firmes na pista de dança. Adocica e Chorando Se Foi tocavam repetidas vezes sem ninguém realmente se importa, porque o ritmo era contagiante. A adoração estava no suor, no balanço dos quadris, na fornalha que parecia estar acesa no peito, na bebida e nos cigarros. Para nós uma liberdade, para os mais conservadores era a música do próprio diabo. E é aí que está: nunca achei que as beatas estivessem certas daquela vez.

Aconteceu em um domingo de julho, seria feriado na segunda-feira então podíamos aproveitar da maneira como quiséssemos e claro que não perdemos tempo em nos jogar na lambada. Eu me divertia à beça e adorava uma caipirinha bem-feita, mas naquela noite foi apenas uma e depois refrigerante, não estava me sentindo no maior clima para álcool.

Ficamos no balcão do bar por um tempo: Carmen, Lúcia e eu. Jogando conversa fora e apontando os rapazes que achávamos bonitos. Um deles se destacou, pela iluminação psicodélica e colorida (o que não seria um bom lugar para um epilético) não conseguíamos captar todos os detalhes, mas era bonito. Não uma beleza natural, não aqueles garotos da faculdade que viviam praticando esportes. Era quase como se a aura em torno dele pulsasse em tons de branco, talvez uma combinação da bebida, do calor e da camisa branca com os quatro botões de cima para baixo abertos mostrando o peito nu e bronzeado dessem aquele feito, talvez… Mas nenhuma de nós desviou o olhar. O rosto era anguloso, marcado e quadrado, ostentando uns óculos escuro e na cabeça um chapéu branco no mesmo tom da camisa. Lembro bem dele.

Carmen, a mais danada de nós três, foi quem tomou a frente quando Lucia e eu apenas rimos das piadas que ela fazia. Deixou os drinques no balcão do bar e se atirou na pista de dança, lembro de ter dito que ela estava tão apressada quanto fogo lambendo gasolina. Logo Carmen o alcançou e eles dançaram juntos, quadril contra quadril, quase obsceno para os costumes da época, e ele parecia nem cansar.

Lucia e eu aplaudimos e rimos, levantando drinks em comemoração. Ele era o melhor, as pernas pareciam se mover sem nenhuma dificuldade e os braços apertavam minha amiga, girando-a, puxando, e na boca o sorriso nunca sumiu. Um galanteador, pensei. Poderia ser o rei daquele lugar se quisesse, com certeza mulheres e homens até, cairiam aos seus pés. Rei da Lambada, um ótimo título para os frequentadores.

Mas depois disso não tardou a acontecer. Foi rápido e inesperado, como um ladrão que vem a noite e te surpreende. De início não consegui compreender o que se passava até estar frente a frente. Eles estavam dançando em um momento e no outro ela estava gritando histericamente, como uma louca, não sei, mas o grito dela ecoa em minha mente até hoje, mesmo depois de tendo a visto descer silenciosa no caixão em direção ao fundo da cova 10 anos após o acontecido por causa de um câncer de mama que não foi tratado a tempo. O Rei da Lambada segurava o braço dela e falava, mas Carmen parecia querer fugir. No chão, próximo aos pés estavam o chapéu branco sendo chutado e os óculos pretos quebrados — pisoteados pelos outros, eu acho. Logo não só ela, mas as outras pessoas próximas gritaram e começaram a correr, criando um tumulto de corpos humanos dentro daquele espaço que parecia ainda mais pequeno diante da agonia.

Diferente de Lucia que ficou sem reação de imediato, eu corri até os dois que continuavam no meio da pista de dança apesar da correria. Então vi o rosto que ficaria em meus pesadelos pelo resto da minha vida. Acredito que jamais esquecerei, mesmo com a velhice me atingindo.

Os óculos que estavam no chão antes escondiam olhos completamente vermelhos, semelhantes a duas poças de sangue, ainda assim não era o mais assustador (acredite!). Entre os fios do cabelo negro que desciam até a altura do maxilar se curvavam para trás dois chifres cinzentos e, de perto, a pele dele parecia extremamente pálida, o que ressaltava tal aparência satânica. Mas não parava por aí, ainda diante de tal horrenda visão puxei Carmen para junto de mim e talvez por não esperar por isso ela escapou do aperto das mãos dele. Nelas unhas sujas se apresentavam e, ao descer o olhar, vi que os sapatos também haviam sido abandonados e no lugar de dois pés com dedos havia um par de cascos fendidos. Não pensei duas vezes, fugi de lá junto com Carmen, Lucia não estava à vista. Descobrimos depois que ela foi ajudada por um barman.

A notícia se espalhou rapidamente naquela mesma noite e, na segunda-feira, todos os jornais estavam falando a respeito do Demônio da Lambada, o que era um prato cheio para os religiosos que não perderam tempo em sair pelas ruas e onde pudessem ser ouvidos gritando que aquela era a música do diabo e que o próprio havia ido dar seu selo de aprovação. E, quando todos pensaram que o falatório ia acabar, eles receberam um reforço que foi muito bem-vindo: Carmen se converteu em uma igreja evangélica e dava seu testemunho aos quatro ventos de que precisou dançar com o próprio diabo para compreender que estava vivendo uma vida de pecados.

Entenda, Marina, não quero julgar, mas acabamos chegando a esse ponto. Naquele mesmo ano houveram dois grandes escândalos religiosos na nossa cidade. Um envolvendo pedofilia e outro desvio de dinheiro, um verdadeiro caixa 2 dentro da igreja mais famosa de Nova Amsterdã. A hipocrisia não bateu na porta deles, ela comia do corpo de Cristo e bebia de seu sangue todo mês junto dos fiéis.

Desse dia em diante as três amigas inseparáveis se separaram. Carmen voltou para a casa dos pais e abandonou a faculdade para se dedicar as obras religiosas e Lucia voltou para a casa dos pais e se afastou aos poucos até que nosso único contato fosse apenas um “oi” pelos corredores. Me vi obrigada a deixar o apartamento e alugar uma kit-net que era o que podia pagar na época.

No primeiro ano depois do acontecido perdi as contas de quantas vezes acordava na madrugada ensopada de suor e respirando com dificuldade e não no sonho, mas depois de acordar dele, minha mente me transportava imediatamente para a recordação daqueles olhos diabolicamente sanguinolentos e juro que podia ouvir os cascos fendidos batendo contra o chão do corredor do prédio onde morava. Retumbando em minha mente, como quem diz: estou chegando, querida, vamos dançar!

Casei, tenho dois filhos e adoro meu trabalho e vida, não sinto mais aquela presença opressora nem acordo de pesadelos e ouço o som dos cascos no chão me aterrorizando, mas, vezes perdidas, na escuridão da madrugada, entre um sonho e um pesadelo que normalmente não me lembraria ao acordar pelo amanhecer lembro que haviam duas poças de sangue me encarando, como se ainda estivesse chateado com o que fiz naquela noite.

A coragem de escrever sobre isso veio da curiosidade. Se ele era realmente o Rei da Lambada ou o Diabo dela, acredito que não tenha estado exclusivamente aqui em Nova Amsterdã, porque naqueles anos o país inteiro fervilhava ao ritmo quente da lambada e os relatos que encontrei em buscas pela internet não são completamente satisfatórias, há muita coisa sem sentido. Então tenho a esperança de que se alguém passou por algo parecido ou tem alguma ideia do que ele poderia ser (se é que há a possibilidade dele não ser o diabo tão falado), gostaria de saber. A idade já me atingiu e nos últimos tempos tenho sentido o despertar dessa curiosidade.

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SILÊNCIO. Até sua mente se silenciou diante do relato. Não era dos mais estranhos, lera coisa pior, com toda certeza, mas parecia real, ao menos para Regina, mas seria um ótimo acréscimo ao vídeo que planejava. Não deixaria o conto passar despercebido.

Marina terminou o chá com biscoitos e escreveu uma resposta padrão para Regina, agradecendo por compartilhar sua história.

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Antônio Gomes

Antônio Gomes

Colaborar do Dinastia N. Um amante irremediável da cultura pop em todas as suas formas. Escritor e leitor voraz. Seguidor fiel do mestre Stephen King e filho dos anos noventa, sendo o sonho conturbado da realidade que ainda está aprendendo a dar os primeiros passos, é fácil me encontrar comendo batatas, assistindo séries ou escrevendo alguma história com plot twist.

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