O Eclipse Total da Alma — Nova Amsterdã 09

O Eclipse Total da Alma — Nova Amsterdã 09

Depois de uma pausa, estamos de volta a Nova Amsterdã! Voltado para a cultura, ficção e fantasia, o trabalho a seguir é fruto de uma parceria entre o Dinastia N e o autor Antônio Gomes. A iniciativa busca explorar mais o universo das ideias do escritor, através desta coletânea de contos. As obras serão publicadas semanalmente as terças-feiras. Na oitava publicação da série Nova Amsterdã, o conto apresentado será: O eclipse Total da Alma.

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FALTA POUCO, o pensamento rodava na mente do homem como um mantra. Mais um dia de trabalho havia chegado ao fim e ele só queria chegar em casa, comer um prato cheio, tomar um banho demorado e cair na cama. O final de semana estava às portas e as ideias do que fazer quando levasse a esposa e o filho à praia já borbulhavam em sua cabeça.

Estacionou na garagem de casa e riu quando o filho abriu a porta de trás e saiu correndo para dentro em busca do cachorrinho que havia ganhado de presente ainda naquela semana. Pacientemente o homem na casa dos trinta anos saiu do veículo, deu a volta, pegou sua pasta e a mochila do filho.

Passou pelo filho que gargalhava no chão enquanto o pequeno Apolo sacudia o rabo e lambia o rosto do dono, feliz por seu companheiro de brincadeiras estar finalmente em casa. A esposa estava na cozinha, sentada na mesa esboçando alguns desenhos para o bolo de casamento que uma amiga havia encomendado. Modéstia à parte, a mulher que ele amava era como a Boticelli da confeitaria.

— Chegou uma carta para você, amor. — Ela disse depois de receber um curto beijo, um cumprimento. – Está na mesinha.

A mesinha ficava no centro da sala, era de vidro e haviam dois elefantes de porcelana e flores brancas e roxas. Tinha uma revista sobre os modelos para iniciantes de ponto-cruz e também os modelos de bolos mais procurados no primeiro semestre de 1995. Em cima disso, a carta.

Ao pegá-la logo estranhou, as rugas de expressão agora aparentes no rosto cansado. A curiosidade o atingiu em cheio ao ler o nome do remetente. Seu melhor amigo e isso só deixava tudo mais estranho, pois haviam se visto e saído para beber três dias atrás.

O que esse idiota está aprontando, com isso em mente, rompeu o lacre do envelope branco (com direito a selo e tudo mais), retirou a carta e sentou, dispondo-se a ler.

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03 de novembro de 1995

CARO MATHEUS PINHEIRO,

Tenho uma história para te contar e estou crente de que você pode até achá-la absurda, eu também acharia se estivesse em sua posição, mas jamais poderia confiar em alguém além de você para compartilhar o inferno em que minha vida se transformou. Sim, eu olhei o inferno sem saber que em breve eu seria o próprio.

Eu o assisti em 03 de novembro de 1994 quando viajei nas férias para Santa Catarina visitando minha irmã que havia tido neném poucos meses antes. Estávamos no lago, preparados para acompanhar o eclipse total do sol — que seria o último desse século e não podíamos deixar passar batido. Levamos comida, espreguiçadeiras e até guarda-sol (o que pode soar até meio irônico) e a única pessoa dentro da água era eu desde o momento em que o eclipse deu o ponta pé inicial até acabar. Era uma manhã de quinta-feira na primavera que se transformou em uma noite quente por quatro minutos. Apenas quatro minutos e minha vida inteira mudou. Hoje não queria ter estado na água, na verdade, não queria estar em nenhum lugar onde pudesse ter testemunhado aquele hediondo evento que duvido ter sido natural.

Tudo funcionou como planejado naquele dia. Chegamos sem dificuldade ao lago e éramos os únicos lá. Minha irmã, o marido, meu sobrinho e eu. Tomamos café com alguns pães de queijo no píer onde foi armado o guarda-sol e foi logo depois disso que decidi dar um mergulho e nadar um pouco, faltavam alguns minutos para o eclipse e a água estava fria. Você sabe, a água sempre foi algo que me atraiu e um mergulho não me mataria — o que se provou mentira em um futuro próximo.

Confesso, estava precisando de um momento de descanso, andava uma pilha de nervos devido o rumo na agência com todos os novos contratos grandes que chegavam toda semana. Isso era bom, pois significava que a agência de advocacia estava sendo reconhecida positivamente no mercado, mas com isso vinham os estresses. Então, aproveitei a oportunidade para ir ao extremo oposto do país.

Lembro da música que tocava no momento em que o dia apagou a luz, ela tocava em todas as rádios, um hit mundial como minha irmã insistia em dizer. I’ll Stand By You da banda The Pretenders. A letra martela em minha mente até hoje, como se um pequeno diabo em minha mente pronto para colocar um disco para tocar, essa música soou em todos os dias que acordei ensanguentado. Desculpe não ter compartilhado antes sobre tudo isso, menti tantas vezes para você, dei desculpas esfarrapadas, sinto muito. Tão viva quanto a música, a memória daquele dia jamais me abandonou e talvez a leve mesmo depois que me for.

Segundo os jornais o tempo em que a lua escondeu o sol foi por pouco mais de quatro minutos, mas, acredite, pareceram horas. Haviam duas aureolas douradas e em todas as direções uma luz amarelada se destacava como tentáculos de uma criatura mitológica vinda do espaço. Era uma visão magnifica e assustadora ao mesmo tempo.

Meu cunhado havia comprado cartões com lentes especiais recomendadas pela NASA, segundo ele, pois olhar diretamente para o eclipse podia matar as células da retina devido à radiação ultravioleta. Confesso que preferia ter perdido os olhos ao invés da humanidade. Perdi quem eu era. Não usei o cartão da NASA, dos quatro fui o único e isso foi pano de fundo de uma discussão tardia com minha irmã a respeito de responsabilidade e saúde.

O eclipse total atingiu seu ápice e as aureolas douradas sumiram junto dos tentáculos dando lugar a um anel de fogo que esquentou o clima, o ar e a água do lago onde eu estava. Afundei na água escura, fechei os olhos e acredito que foi nesse momento em que o que quer que viesse daquele eclipse acordou em mim um lado sombrio em meu cérebro, uma zona adormecida e morta — acredito que todos temos um lado desses, enterrado nas covas do nosso ser tão profundamente que muitos nascem e morrem sem ver nem a sombra disso. Não contei para minha irmã, ela me encheria de “eu te avise” e “deveria me ouvir já que sou mais velha”. Eu era jovem, hoje, um ano depois, me sinto velho e exausto.

Quatro dias depois do eclipse eu estava de volta em Candelária, no lugar onde comecei a morar desde que sai da casa dos meus pais e que você tantas vezes visitou. Ainda tinha duas semanas de férias e fiz planos para o dia em que cheguei, mas, ao me deitar para um cochilo pós-viagem, dormi profundamente até às 11 horas da manhã do dia seguinte. Acordei, tomei um banho e fui para a rua comprar um Tribuna do Norte na banca de jornal descendo a rua, na lanchonete ao lado comprei um café com tapioca recheada. A manchete na capa era berrante e creio que chocou a todos não só em Nova Amsterdã, mas em todo o Rio Grande do Norte. Crimes de violência não eram novidades no estado, mas aquele saltava aos olhos pelas características incomuns.

Sim, meu amigo, estou falando do Círculo de Sangue, mas não pule para o final, se chegou até aqui creio que tenho sua total atenção. A vítima apresentada no jornal era uma mulher, Milena Gouveia era seu nome, encontrada na rua que dividia o bairro de Candelária e Lagoa Nova com um círculo de sangue desenhado a faca na barriga com diversos tentáculos como filetes de sangue e, no interior, diversas perfurações. Para completar, a genitália fora mutilada e o olho esquerdo faltava no rosto. Ela foi a primeira das quatro vítimas mostradas publicamente pelo jornal, mas foram mais. Talvez dez ou mais. Órgãos genitais destroçados, círculos com tentáculos de sangue e olhos desaparecidos. E, a única ligação entre elas, além de morarem na capital do Rio Grande do Norte, era eu.

Mas a polícia não chegou a isso, não havia como. A primeira pista para mim mesmo veio porque os quatro assassinatos divulgados, os dias em que aconteceram, batiam com os apagões que eu sofria e junto disso, em algumas vezes, eu acordava ensanguentado, mas ao me lavar, não encontrava nenhum ferimento que fosse a origem de qualquer sangramento.

Eu era o elo maléfico, o agente do abismo. Não lembro bem dos outros, talvez esse ser em mim começou a deixar de ser seletivo, mas os quatro nos jornais, os dois homens e duas mulheres, estavam ligados por lençóis sujos de mentiras. Talvez esteja se perguntando que merda eu estou dizendo, eles eram cada um casado com seus respectivos conjugues e estavam se relacionando as escondidas, sorrateiros como a cobra no Éden. Traidores. Eles abandonaram os votos feitos perante a lei de Deus. Como meu pai fez com minha mãe e arruinou nossas vidas, como Sabrina fez comigo e o primeiro namorado dela também durante a faculdade. Os quatro deixavam o conforto de suas famílias e se encontravam as escondidas. Milena Gouveia e Wagner Alencar, Alma Valério e Cristian Oliveira. Um deles trabalha comigo e os outros foram clientes da firma.

A certeza da qual não podia fugir e que transformou meus medos e suposições em realidade veio há poucos dias. Sim, sentia repulsa e ódio como podia sentir meu coração batendo no peito e os pulmões se contraindo por qualquer situação relacionada a traição, era algo horrível que deturpava promessas e arruinava vidas… e o eclipse, ele intensificou tudo isso em mim, deu voz e força ao pior em mim e o pior se alimenta de tudo isso. Sei que os matei, porque mesmo com os apagões tudo aflorava de maneira familiar com detalhes nunca divulgados.

Mas apesar de tudo isso, não acredito, não quero acreditar, que as pessoas devam pagar por tal pecado com suas vidas. É bárbaro. Pensei em me entregar para a polícia, mas conclui que disso não viria nada de bom. Eu pagaria por meus crimes e depois? Ainda haveria vida para viver? Merecia viver após tudo isso? Sendo assim, decidi seguir as vítimas do meu Eu Eclipsado e ser julgado pelo que quer que venha depois dessa vida.

Não sei se um dia eu teria coragem de dizer isso pessoalmente, por isso, acredito que quando estiver lendo eu já terei partido. Um louco ou um monstro, o eclipse despertou os dois em mim, como Dr. Jakyll e Mr. Hyde em O Médico e o Monstro. Encaminhei uma carta semelhante a essa para minha irmã e outra, ao departamento de polícia, essa última junto ao vidro de conserva onde estão os olhos que meu Eu Eclipsado guardou como troféu — os encontrei escondidos no banheiro.

Demorei muito tempo para criar coragem e fazer o que deveria ter sido feito e com isso aumentei a trilha de sangue e corpos atrás de mim, por isso, não posso mais adiar, agora tenho total consciência Dele e o mesmo parece não querer mais disfarçar ou esconder a fome por violência e tenta a todo momento tomar o controle do meu corpo.

Matheus, meu amigo, o mudo é estranho e o universo, misterioso. Espero que possa entender minha decisão, do contrário, tudo bem. Nem sempre concordamos em tudo e talvez seja por essa diferença que nossa amizade tenha sobrevivido por tantos anos. Mais uma vez, desculpe-me, se puder.

Preciso me apressar e deixar isso nos Correios, as lâminas me esperam, algo tão pequeno pode causar tanto dano… Adeus e obrigado.

Seu afetuoso amigo,

Pedro.

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Antônio Gomes

Antônio Gomes

Colaborar do Dinastia N. Um amante irremediável da cultura pop em todas as suas formas. Escritor e leitor voraz. Seguidor fiel do mestre Stephen King e filho dos anos noventa, sendo o sonho conturbado da realidade que ainda está aprendendo a dar os primeiros passos, é fácil me encontrar comendo batatas, assistindo séries ou escrevendo alguma história com plot twist.

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