As Testemunhas — Nova Amsterdã 07

As Testemunhas — Nova Amsterdã 07

Voltado para a cultura, ficção e fantasia, o trabalho a seguir é fruto de uma parceria entre o Dinastia N e o autor Antônio Gomes. A iniciativa busca explorar mais o universo das ideias do escritor, através desta coletânea de contos. As obras serão publicadas semanalmente as terças-feiras. Na sétima publicação da série Nova Amsterdã, o conto apresentado será: As Testemunhas.

AVISO: horror, gore, linguagem explícita, morte, violência.

1

SAMUEL NÃO DEIXAVA PASSAR UMA OPORTUNIDADE. Por isso, ao ver a mãe sair em direção a feira do vilarejo, abriu a janela de madeira e pulou direto nos arbustos do jardim de casa, tendo cuidado para não pisar no canteiro de flores ou ela ia querer sua cabeça em troca antes dele gritar: papai!

Ao se livrar dessa, correu até a parte de trás da casa e pegou sua velha bicicleta pintada há três meses de um tom vermelho metálico, montou e pedalou pela rua de paralelepípedo com casas pequenas e arrumadas como a sua. Desde muito novo, Samuel Pontes gostava de pedalar, era uma de suas maiores diversões. Isso e brincar na mata que cercava o vilarejo.

O pequeno vilarejo se encontrava em Papari, município no estado do Rio Grande do Norte que, em um futuro distante, receberia o nome de sua mais famosa moradora: Nísia Floresta. Mas ali, no ano de 1899, quarenta e cinco anos após sua fundação, as pessoas ainda se impressionavam por boatos e era isso que se espalhava pelas ruelas nos últimos dois meses.

O motivo para a mãe trancá-lo em casa de castigo não era apenas por ele ter quebrado um copo, o verdadeiro é porque ela acreditava no que estava sendo dito em cada canto daquele lugarzinho esquecido por Deus no nordeste brasileiro. Lendas já existiam sobre a Velha Igreja, como todo grupo de pessoas, com o passar dos anos, histórias surgiram a respeito de assombrações no local.

Naquela época não era incomum que jovens depois dos 15 anos saíssem de casa e fossem para outras regiões em busca de melhores oportunidades de emprego, então, não era feito um alvoroço disso, porém, quando crianças de menos de 10 anos começam a desaparecer todos ficam em alerta.

Samuel não poderia se importar menos, claro, ficava com receio e até curioso sobre o assunto, já que os adultos sempre desconversavam quando ele chegava perto como se o garotinho já não soubesse do que se tratava ou fosse burro o suficiente para não entender. Ainda assim, ele não ia deixar suas voltas de bicicleta por causa de algo assim. Não tinha muitos amigos, na maioria as crianças eram mais velhas que ele ou bem mais novas, então sempre andava para cima e para baixo com Tiago que tinha a mesma idade que ele.

A casa de Tiago ficava a três quarteirões da sua e o jardim não era tão bem cuidado como o da sua casa, na verdade, era apenas um amontoado de mato alto e muitas vezes seco. Deixou a bicicleta encostada na cerca de arame e andou até a porta de madeira gasta.

Bateu uma, duas, três e só na quarta foi atendido pelo homem esguio e alto que era o pai de seu amigo.

— Boa tarde, senhor.

— Tarde, Samuel. Tiago já saiu na bicicleta, disse que ia para onde vocês sempre vão. — Revelou com um ar sonolento, o garoto não lembra de já ter visto João Oliveira sem essa expressão de cansaço, afinal, o homem acordava cedo para trabalhar no comercio de pães na parte da manhã.

Oh, acho que acabei atrasando — riu enquanto já se virava de volta para sua bicicleta velha e acenando para o mais velho, — vou encontrar logo com ele, a gente volta antes do sol dormir.

Saiu pedalando, o corpo tremendo pelas pedras de paralelepípedo desiguais na rua, em direção a mata. Era lá que eles normalmente brincavam e até colhiam alguns frutos, comiam e levavam para casa. Cajus, mangas e cocos eram as principais frutas da região.

De bicicleta a distância não parecia tão grande, erma no máximo oito minutos até o lugar onde eles costumavam sempre se encontrar e não foi difícil para ele seguir esse caminho, a estrada virou barro e logo estava em uma trilha ladeada por pés de acerola que ainda estavam todas verdes e amareladas.

Toda sua empolgação por encontrar o amigo e poderem brincar pelo resto da tarde caiu e ralou os joelhos quando Samuel chegou ao ponto de encontro. Com a pequena testa franzida quase forçando uma ruga de estranheza ele desceu da bicicleta e a soltou no chão de areia mesmo, caminhando em direção a bicicleta que reconheceu ser a de Tiago encostada em um arbusto.

Para onde o cabeça de vento foi?, questionou-se mentalmente, desconfiado, analisou todo o terreno a sua volta em busca de algo que indicasse para onde Tiago havia ido, mas parecia tudo no lugar, ao menos, a bagunça normal de folhas secas, verdes, gravetos, grama e areia. Nada fora do normal.

Acreditando na segurança do lugar que frequentou desde que podia se lembrar, tomou uma decisão que mudaria sua vida para sempre: deixou tudo para trás e seguiu o resto da trilha mata à dentro.

Samuel na mata.

2

UMA MANGA. Samuel pegou a fruta que caiu de uma das mangueiras mais baixas que ladeavam uma parte da trilha estreita e comeu boa parte dela até alcançar uma bifurcação significativa. Do lado esquerdo, com mais uns sete minutos de caminhada, chegaria na Velha Igreja, à direita mais rapidamente chegaria ao rio pequeno. Entre as duas opções estava obvio para ele que Tiago podia ter ido ao rio, afinal, entre eles, o amigo era o que mais gostava do lugar.

Chupou o último pedaço, o gosto da manga dominava sua boca inteira e ele não fez cerimonia antes de jogar o caroço e o que sobrou no chão assim como logo depois limpou as mãos na camisa de botão que usava.

O rio tinha uma coloração amarelada devido as pedras no fundo e as folhas que caiam das árvores e se perdiam ao longo dos anos, presas lá embaixo. Andou por um lado da margem e chamou por Tiago, depois gritou a plenos pulmões, mas resposta alguma foi dada. Atravessou a pequena ponte de madeira e procurou do outro lado, nada também. Samuel já estava com a pulga atrás da orelha e a sensação de que algo estava errado crescia em seu corpinho magricelo.

Deu a volta e atravessou novamente a ponte, várias perguntas frutificavam em sua mente infantil das mais simples como Tiago ter voltado achando que tinha que esperar no ponto de encontro deles e, no final das contas, acabaram se desencontrando ou, na mais louca das hipóteses, ele quis fazer o machão e ir até a Velha Igreja como sempre ameaçavam e nunca tinham coragem. Jamais passou pela cabeça a ideia de que ele pudesse ter se perdido, eles conheciam aquela mata. Talvez alguém o levou, imaginou, como mamãe chama? Secresto ou algo assim, será que os boatos eram verdadeiros?

Seu coração acelerou, as batidas pareciam um daqueles tambores das histórias de terror sobre monstros vindos em navios da África que o pai contava. Sem vergonha de ser chamado de covarde ele correu de volta, levando apenas metade do tempo para chegar na bifurcação.

Foi lá que ouviu um uivo alto, então farfalhar de folhas e por mais que soubesse que não poderia ser um lobo ou lobisomem seu corpo todo se arrepio como um pressagio ruim e sua primeira atitude foi correr na direção oposta e ela não levava a sua bicicleta.

Era um típico corredor, aquilo fazia parte de sua infância, mas por algum motivo fugir do que quer que estivesse uivando na mata, podia sentir os ouvidos sendo tampados, como quando mergulhava no rio e entrava água, assim como finalmente entendeu a expressão que seu pai sempre dizia: estou com o coração batendo na boca.

Os uivos só cessaram quando uma pequena casa entrou no campo de visão de Samuel. Ele já havia visto uma como aquela antes, porque era muito parecida com a casa paroquial que ficava atrás da igreja católica de Nossa Senhora dos Prazeres na pracinha do vilarejo e ali, em sua frente, como a sombra de uma criatura grande a Velha Igreja deixava sua escuridão fria cair sobre a casinha que parecia bem maltratada pelo tempo.

Samuel estancou de repente, o coração ainda batendo rápido e a surdez temporária ainda tinindo, fitou a monstruosidade que era aquele lugar. Se os poucos pelos de seu corpo se arrepiaram com os uivos, ali eles estavam de pé, como soldados batendo continência. As janelas de vidro que outra hora ocupavam as paredes da igreja estavam quebradas e a pintura na madeira velha era um branco desbotado e descascado que mais parecia cinza com um trato da Mãe Natureza e seu comportamento febril naquela parte do Brasil. Os vários moradores do vilarejo, principalmente os mais velhos que não ligavam se estavam falando com adultos ou crianças, diziam que a Velha Igreja existia desde antes das primeiras famílias fundarem o vilarejo, diziam que havia um padre tão velho quanto o lugar, mas que ele morrera no mesmo período e que seu espirito assombrava a congregação e por isso ninguém quis mexer com o lugar, preferindo a construção de uma nova.

Ao contrário dela, a casa paroquial estava movimentada, algo semelhante a fogo parecia estar aceso lá dentro e com a luz amarelada sombras apareciam pelas frestas das únicas duas janelas à vista, feitas de madeira, o fez lembrar das festas de São João quando comiam milho e canjica e dançavam e pulavam a fogueira. Mas havia algo mais, mal e tão… a mente de Samuel ainda muito limitada pela idade, apesar de sua curiosidade, não conseguia encontrar palavras que representassem aquele desespero crescente que ele sentia no peito e o suor que se acumulava em suas mãos de unhas sujas.

Antes que ele pudesse decidir o que fazer, parado em frente aquela monstruosidade de pedra e madeira, sentiu um peso sobre seu corpo e então a vista ficou turva, fora de foco, uma dor forte na parte de trás da cabeça, a sombra se arrastou até alcançá-lo, então, tudo era escuridão. Samuel quis gritar, ele gritou, em sua mente, que agora também se apagava, caindo em um rio escuro onde nada mais estava em seu controle, se é que um dia esteve.

Velha Igreja.

3

O CHEIRO ERA FORTE E FOI A PRIMEIRA COISA QUE ELE SENTIU AO RECOBRAR A CONSCIÊNCIA, não abriu os olhos, talvez por ainda estar grogue, mas talvez por medo de saber a origem do cheiro que a cada segundo ficava mais perto do fedor de um animal morto, como aquele gato que Tiago e ele encontraram uma vez na estrada. Atropelado por uma carroça, lembra de ter dito.

Não sabia quanto tempo passara naquele estado semiconsciente até que finalmente abriu os olhos. Queria ter acordado em seu quarto ou até mesmo debaixo de um dos cajueiros na entrada da mata, mas estava com o rosto contra um piso de madeira sujo e frio. Ainda assim não foi isso que o puxou para a realidade, mas o grito alto e familiar.

Primeiro achou estar em um abatedouro, como aquele que havia na feira do vilarejo, pois havia sangue no chão e moscas voando por todo lado, seus olhos também encontraram um homem de costas para ele, vestido de preto, de pé diante de uma mesa larga onde alguém estava deitado e era de lá que vinham os gritos dolorosos. Tentou levantar, mas a cabeça ainda doía, os gritos voltaram e pareciam estar sendo bem no seu ouvido.

— Ao Senhor das Moscas, o batismo no sangue. — Uma voz forte se sobrepôs aos gritos.

Tiago, o nome saltou em sua mente e lá também se acabou. Aqueles gritos eram do seu melhor amigo e isso o deixou ainda mais apavorado, porém sua agitação não ajudou em nada, logo estava de volta ao frio escuro da inconsciência.

Acordou pela segunda vez e percebeu que não estava mais com o rosto no chão, mas sim, sentado e com as costas apoiadas em algo duro. Ainda sonolento, piscou algumas vezes para se acostumar a iluminação do ambiente, o que não foi difícil, já que lá fora estava escuro aparentemente e o vento que entrava pela janela não apagava as inúmeras velas espalhadas pena congregação. Sim, Samuel conseguiu fazer a ligação sem muito esforço, mas ela parecia uma igreja apenas por fora, ali dentro era um templo nada cristão e era a encarnação de um mal que ele nem imaginava em seus piores pesadelos infantis.

As paredes que Samuel conseguiu enxergar estavam manchadas e cheias de mofo, o que causava uma irritação em seu nariz ao ponto de fazê-lo querer espirrar, mas a principal profanação vinha do altar. Ele estava em um dos bancos da parte que sua mãe chamava de corpo de Cristo, onde ficavam todas as pessoas que iam prestar seu culto, o altar não tinha uma cruz, atrás do púlpito coberto de preto se encontrava uma fileira de cadeiras em semicírculos e a visão que jamais o abandonaria até o dia em que tiraria a própria vida ao atingir pouco mais de 13 anos.

Ao redor do púlpito e sentado nas sete cadeiras haviam sete crianças mortas sentadas com a mão sobre o colo e vestindo batinas negras em total oposição ao que ele havia visto os coroinhas da igreja da praça usando, com certeza sua mãe chamaria aquilo de imoralidade, mas ele sentia que ia além disso. Mas o pior estava na pele exposta das crianças com diversas inscrições e o rostos onde as pálpebras haviam sido arrancadas deixando os olhos vidrados e mortos fitando o púlpito como em uma hipnose diabólica e entre eles estava seu melhor amigo, Tiago, com o rosto ainda manchado de sangue.

Aquilo era muito para ele, sua respiração estava descompassada, em momento algum imaginou se deparar com aquela situação, tentou levantar, mas caiu, suas pernas estavam presas assim como as mãos e o baque de seu corpo contra o chão fez uma nuvem de poeira subir e o som ecoar pelo ambiente.

— A lua está quase no ponto certo, ele precisa ser banhado para entrar de vez neste mundo. — A mesma voz de antes voltou a falar, dessa vez, mais atento, Samuel percebeu que ela era masculina.

— Toma-me por tola, Malachi? — Uma segunda voz se fez presente. Essa era feminina, profunda, antiga e autoritária. — Este lugar é o Peniel do Senhor das Moscas, temos as testemunhas, o fruto e o sacrifício. Você precisa fazer o certo, ele é o Quinto dos Sete.

Em um momento estava lá, no outro, a escuridão.

Já não tinha mais noção de tempo, porém ainda estava escuro lá fora e as velas ainda queimavam no interior da Velha Igreja. Antes de qualquer movimento, checou e apenas suas mãos permaneciam presas por uma corda grossa. Samuel estava em um banco ainda mais próximo do altar, as crianças que haviam sumido do vilarejo ainda estavam sentadas pacientemente como se esperassem a hora de levantarem e entoarem um hino sinistro.

Sob uma estrutura baixa de pedra, à frente do púlpito e perto do corpo de Cristo, se encontrava uma bacia prateada cheia de entalhes que Samuel não reconhecia e a mesma transbordava um liquido vermelho que pingava e escorri pelo chão e secava junto a poeira e sujeira.

Em um dos cantos escuros do altar ele via uma sombra se mexer, logo a sombra era um homem vestido também com roupas pretas, como um padre e falou com a voz masculina que havia ouvido antes:

— Está quase na hora, Leviatã, o Quinto vai despertar nesse mundo, ele ainda dorme no corpo.

— Tudo bem, meu filho, o mundo deve recebê-lo, assim como recebeu os que vieram antes dele. Este mundo humano, por fim, nos ama mais do que ao seu próprio Deus, pois somos a encarnação de seus próprios desejos. Eles clamam por nós. — A voz feminina também estava de volta e, como antes, afetou Samuel grandemente. — Certifique-se de as testemunhas estejam vivas, elas são peças fundamentais no Levante.

Só então Samuel notou, em um dos bancos, opostos ao seu um corpo deitado e com as mãos amarradas como ele. Lágrimas invadiram seus olhos e ele quis gritar, um nó se formou em sua garganta, como se tivesse engolido um caroço de manga. E lá vinha novamente a sonolência, então as imagens borradas e, por fim, a escuridão da qual não sabia o que esperar.

— Senhor das Moscas, tu que desperta no coração dos homens a ânsia de conquista, a vontade de mais, a gula pela vitória. Belzebu, Quinto do Sete, O Observador no Lago de Lama, Aquele que tem por posse o próprio Cérbero, desperta neste mundo, vem a Peniel e batiza esse lugar como teu.

Agora a luz que banhava a Velha Igreja também vinha da lua que podia ser vista pela abertura atrás do altar onde antes Samuel acreditava que existisse uma vidraça. O globo celeste estava inchado e amarelado, a lua do lobo, teria dito seu pai. O velho homem de roupas negras segurava um bebê nos braços e o banhava com o sangue da bacia de prata usando uma das mãos em concha. O bebê não chorava, Samuel pensou que talvez ele estivesse morto como Tiago e os outros. Isso o lembrou do corpo deitado no corpo oposto e lá estava uma menina negra de cabelos crespos sentada e fitando a cena blasfemadora à frente. Notou também suas mãos soltas, não havia mais corda, ainda assim, não conseguia levantar do banco e correr como queria fazer.

Sentia as lágrimas quentes descendo mais uma vez pelo rosto sujo e se acumulando no queixo até serem vencidas pela gravidade e cair no colo. Em seu peito o coração batia acelerado e o corpo praticamente vibrava com a força que tentava exercer sobre seus músculos em construção. Pensou na mãe e como ela devia estar morta de preocupação por ele não ter voltado para casa. Desculpe, mamãe, te desobedeci, deixou as palavras na mente se formarem, mas só queria andar de bicicleta e brincar um pouquinho.

— E darei poder às minhas testemunhas, anunciou o Senhor das Moscas com sangue e engoliu as revelações do apostolo. — Continuou o velho homem de poucos cabelos ralos, como se contasse uma história de ninar para a criança em seus braços. — Elas falarão em meu nome por mil duzentos e sessenta dias. Se alguém os tentar impedir serão engolidos pela minha vontade e fogo queimará as línguas dos opositores. E acabado seu testemunho, eu, o Quinto que subo do Lago de Lama, lhes darei a paz merecida, beijando-as com os lábios da Morte e elas jazerão os seus corpos na multidão.

Então todas as luzes de velas se apagaram, mergulhando eles na penumbra da luz natural, um vento forte entrou pelas aberturas e junto dele um barulho alto de enxames, como se milhares e milhares de moscas, uma legião delas, batesse suas asas em confirmação as palavras do homem. Um choro alto e estridente ecoou pela congregação e aparentemente o bebê não estava morto.

As crianças no púlpito.

4

TUDO FOI MUITO RÁPIDO E SAMUELL JAMAIS SERIA O MESMO. Apesar da luz no ambiente agora ser apenas natural, ainda podia distinguir muito do que acontecia. Viu a menina levantar do banco com uma faca grande na mão e correr em direção ao homem e ao bebê.

Samuel foi tomado por uma onda de sentimentos que até então eram desconhecidos por ele, ainda como se tivesse hipnotizado assistiu a menina cravar a faca nas costas do velho homem e tomando de seus braços o bebê que se contorcia e chorava.

— Vamos! — Ela gritou em sua direção e só então o garoto sentiu que já conseguia se mexer e levantou com as pernas ainda fracas.

Passou por ele com o bebê nos braços em direção a porta de madeira onde deveria ser a entrada principal da Velha Igreja, Samuel olhou para o altar e Tiago permanecia sentado na cadeira: morto e violado, uma vítima inocente de qualquer pecado e massacrada pela profanação de quem quer que fosse aquele homem.

— Vamos! — A garota de cabelos crespos gritou mais uma vez segurando a porta que rangia sem vergonha.

Passou as mãos pelo rosto e repetiu em sua mente que precisava manter as pernas firmes para correr de volta para casa. Quando ambos saíram conseguiam distinguir as formas na floresta devido a massiva luz do luar, nem se quer lembrou dos uivos que em primeiro lugar o levaram àquele lugar, os dois correram e no último olhar que ele deu em direção a entrada da Velha Igreja viu olhos dourados brilhando na escuridão das sombras e acreditou que aquela era a Leviatã com quem o homem falava — ao menos era o que ele queria acreditar.

Samuel não tinha noção de por quanto tempo correram, mas a menina com o bebê liderava o caminho, de tão apavorado e ainda estarrecido por tudo que havia testemunhado não percebeu que o caminho que seguiam agora era o mesmo que fizera mais cedo e só se deu conta disso quando tropeçou e caiu. Olhou para trás e encontrou sua bicicleta junto a do amigo assassinado e seus olhos mais uma vez borraram sua visão com lágrimas gordas.

— Ei, você, menino, precisamos continuar, estamos quase chegando no vilarejo, precisamos avisar os adultos e o bebe está tremendo no frio. — A voz parecia mais distante agora e ele achava que estava quase apagando outra vez, sua cabeça ainda doía no lugar onde sofreu a pancada.

Pela primeira vez pensou nos pais de Tiago e que eles precisam saber o que havia acontecido com o filho e Samuel sentia que precisava ser ele a contar. Pensou também em seus próprios pais e em como eles deviam estar preocupados e irritados por ele ter desaparecido, mas só queria abraça-los agora. Pensou no que todos iriam dizer quando eles contassem onde todas as crianças desaparecidas estavam.

Levantou e ignorou a garota quando ela reclamou por ele estar arrastando a bicicleta do melhor amigo, passou por ela e a mesma corre um pouco para alcançá-lo. Logo estavam na rua de barro batido. Depois disso, alcançaram as primeiras casas e logo estavam na praça da igreja onde parecia que todos os moradores haviam se reunido.

Alguns seguravam tochas e facões, outros choravam e se abraçavam, mas todos prestavam atenção ao que o padre dizia na escadaria da igreja. Foi então que a primeira pessoa os viu e gritou, um som que irritou seus ouvidos.

Samuel só queria seus pais.

5

AS TESTEMUNHAS FALARAM E OS OUVINTES ESTAVAM HORRORIZADOS. Samuel e Ester. Alguns dos moradores fizeram uma procissão tumultuosa até a Velha Igreja onde se depararam com a cena profana e diabólica, como se o próprio inferno tivesse subido na terra. As crianças desaparecidas mortas ainda em suas posições silenciosas assim como o corpo do velho esfaqueado no chão.

Um dia depois todos foram enterrados no cemitério atrás da igreja — com exceção do monstro sequestrador que foi cremado, pois não teria a honra de ser enterrado ao lado dos bons cidadãos do vilarejo.

A notícia sobre o acontecido se espalhou pelas localidades ao redor depois da força policial de uma das cidades mais desenvolvidas ter ido até o local e logo o Rio Grande do Norte comentava sobre o Padre Demoníaco e o sequestro das crianças. Jornalistas andavam pelas ruas do vilarejo juntando informações e principalmente coletando o testemunho das duas crianças sobreviventes que não se opunham a repetir a história incansáveis vezes e detalhadamente — que era o que mais chocava os pais e entrevistadores.

O caso viria a figurar como um dos mais sinistros da história de todo o país por décadas por todas as características que o envolviam, por esse motivo, pouco mais de três anos depois, o suicídio cometido por Samuel e Ester em praça pública, cortando as gargantas, após saírem da missa dominical junto da família chocou o vilarejo, mas não surpreendeu, afinal, as crianças haviam passado por uma pressão monstruosa e mesmo sob o apelo dos pais, o padre negou o enterro deles no cemitério cristão já que eles tinham pecado contra Deus tirando as próprias vidas.

Abel Antônio Morais foi adotado por uma família de classe alta envolvida no alto escalão da polícia do Rio Grande do Norte que morava na capital Nova Amsterdã um ano após o nascimento e à medida que crescia sempre ouvia elogios de como era dedicado nos estudos e que tinha a presença de um líder nato, sempre inspirando as pessoas a apoiar suas ideias. Tornou-se um grande militar e esteve à frente de eventos que marcariam mais uma vez a história do Brasil e mudariam o curso do país no ano de 1964 onde se alimentou sem parar do que havia de pior na alma humana.

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Antônio Gomes

Antônio Gomes

Colaborar do Dinastia N. Um amante irremediável da cultura pop em todas as suas formas. Escritor e leitor voraz. Seguidor fiel do mestre Stephen King e filho dos anos noventa, sendo o sonho conturbado da realidade que ainda está aprendendo a dar os primeiros passos, é fácil me encontrar comendo batatas, assistindo séries ou escrevendo alguma história com plot twist.

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