A Suprema Voz do Blues: Preconceito racial, música boa e atuações memoráveis [Com spoilers]

A Suprema Voz do Blues: Preconceito racial, música boa e atuações memoráveis [Com spoilers]
Levee e Ma duelando no palco

Preconceito racial, atitude, traumas, música e muito talento invadindo a tela, A Suprema Voz do Blues é sobre tudo isso e muito mais. Com um total de cinco indicações ao Oscar 2021, incluindo as de melhor ator e atriz, o filme entrega algumas das melhores atuações de 2020.

Lançado na Netflix em novembro de 2020, O filme entrega uma interpretação ímpar de Chadwick Boseman, naquele que seria fatalmente seu último personagem, o músico Levee Green.

Por mais fã da Marvel que você possa ser e mesmo que um motivo qualquer, só tenha conhecido o ator em seu papel como Pantera Negra, a lembrança do eterno rei de Wakanda só leva dez minutos para deixar a mente diante da atuação de Boseman neste filme.

A entrega do ator é tão forte e marcante, que mesmo antes do primeiro grande monólogo que faz, o espectador já sente que o ator é e sempre foi aquele personagem, ele interpreta com uma naturalidade capaz de lhe fazer esquecer que se trata de um filme.

Seu duelo com Viola Davis, que interpreta cantora Ma Rainey, inspirada em Gertrude Rainey, uma das primeiras cantoras afro-americanas profissionais de Blues a gravar álbuns. E que tem um gênio singular e nada fácil de lidar, cria uma experiência de antipatia contra a grande estrela e suas imposições.

Quanto Levee, o talento dele é tão notável quanto sua arrogância jovem em acreditar excessivamente em si. Embora realmente ele toque e componha de forma diferenciada, a impaciência em cavar uma oportunidade e seu orgulho, o coloca em rota continua de colisão com Ma.

Outro ponto que vale o destaque é que para além da protagonista, Boseman tem um duelo pessoal com cada um dos músicos e até mesmo com o dono do estúdio de gravação, que lhe promete gravar suas composições e versões dos arranjos.

Em especial, uma das cenas mais marcantes de toda a obra é sem dúvida o choque de ideias com Cutler, vivido por Colman Domingo, que como homem religioso que é, explode após ouvir algumas blasfêmias repetidas com frequência por Levee.

O confronto dos dois é visceral e se torna ainda mais, quando Levee puxa sua faca e parte para a briga. Entre todos os apelos para cessar o conflito, as falas do monólogo do protagonista revelam que o problema real, seu alvo não é o Cutler, mas a figura divina em si, que o teria abandonado. O que ocorrera na infância, quando o jovem, teria visto sua mãe ser estuprada por homens brancos que invadiram a fazenda, enquanto seu pai estava fora.

Entre os dizeres de que “deus não se importa com negros”, salta aos olhos e faz lembrar de que os “homens de cor“, termo muito usado no filme, foram escravizados e sofreram muito mais do que apenas abusos físicos, tendo a estes sido imposta a religião de seu colonizador.

O que revela um debate que vai muito além do racismo ou religião em si, mas de como o “homem branco” fez o cristianismo se expandir sobre os negros.

Outro ponto interessante é o incomodo do personagem com a porta da sala dos músicos, desde sua primeira cena no ambiente. Ao insistir em se incomodar em tentar abrir a porta, o personagem de Chadwick passa esse “tique nervoso” também para quem o assiste, ao ponto de também causar no expectador a inquietude, quanto ao que há atrás da porta.

Enquanto isso, a teimosia de Ma, ao querer que seu sobrinho Sylvester (Dusan Brown) que é “gago”, faça a introdução da música, rouba a cena e a paciência de todos no estúdio, ameaçando, por muitas vezes, finalizar ou não a gravação do disco.

Um destaque importante sobre a cantora, é quando ela revela a Cutler, o motivo de ser e agir de forma tão impositiva com seu agente e com o diretor do estúdio. Ela se porta assim, pois sabe o valor de sua voz e do seu talento. Enquanto ela vê no Blues uma forma de entender a vida, eles só querem prender a voz dela dentro de uma caixa e ganhar dinheiro com isso, a ideia é de que para o branco, o negro vale tanto o quanto produz de lucro.

O filme segue e mesmo depois de várias tentativas de gravar, um romance entre Levee e Dussie Mae (namorada de Ma, interpretada por Taylour Paige), e quase dar errado várias vezes, finalmente eles conseguem concluir o álbum. A cantora dá um ultimato e em seguida demite o músico Levee, por suas atitudes e comportamentos de oposição a “Mãe do Blues”, como é chamada.

Com essa frustração, as lembranças dolorosas, o desequilíbrio e um novo surto provocado por ter sido enganado pelo dono da gravadora e vendido suas composições a preço de banana, Levee surta uma última vez e em uma briga, em meio a uma discussão desproporcional, crava sua faca nas costas do companheiro de banda, Toledo, interpretado por Glynn Turman.

Enquanto o companheiro, já morto, sangra em seus braços na salinha escura e abafada dos músicos, no estúdio cantores e uma orquestra, todos brancos “bonitinhos” cantam e tocam para o estúdio gravar a música e o arranjo de Levee.

Dedicado a Chadwick Boseman, A Voz Suprema do Blues concorre nas categorias de Melhor Ator e Atriz, Melhor Figurino, Melhor Design de Produção e Melhor Cabelo e Maquiagem. Disponível na Netflix para assinantes, o filme pode dar ao ator um Oscar, em reconhecimento ao seu trabalho, mas que infelizmente só poderá ser feito de forma póstuma.

Quanto a Viola Davis, a indicação fez da atriz e produtora norte-americana a mulher negra mais indicada ao prêmio máximo do cinema mundial. O elenco conta ainda com: Jeremy Shamos, Michael Potts e Jonny Coyne, entre outros.

Mas e você? Concorda com a visão sobre o filme, quer ver mais resenhas e críticas de filmes indicados ao Oscar 2021? Comenta aqui e compartilhar com seus amigos.

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Hiago Luis

Hiago Luis

Co-fundador e redator do Dinastia Nerd, é um dos responsáveis pela administração do site. Leitor de HQs, gamer, amante de cinema, séries e documentários. Que posso dizer? Mais do que apenas ler sobre histórias, sempre quis escrever as minhas próprias. Jornalista de formação e coração, busco acima de tudo contar histórias e fazer isso aumenta meu Ki, alinha meu chakra, desperta meu sétimo sentido. CDF? Nerd? Geek? Viciado em games? Sim e com muito orgulho! E enquanto existir um leitor que precise ser informado, irei em busca da notícia, pois o Batman é o que Gotham precisar!

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