3AM (Prelúdio de Beira-Mar) — Nova Amsterdã 11

3AM (Prelúdio de Beira-Mar) — Nova Amsterdã 11

Entre todas as coisas possíveis de acontecer em Nova Amsterdã, espíritos, fantasmas e criaturas ligadas a outros planos espirituais definitivamente tem seu espaço para se destacar nessa escuridão. 3AM é o prelúdio de uma história maior ainda dentro de Nova Amsterdã chamada Beira-Mar.

Voltado para a cultura, ficção e fantasia, o trabalho a seguir é fruto de uma parceria entre o Dinastia N e o autor Antônio Gomes. A iniciativa busca explorar mais o universo das ideias do escritor, através desta coletânea de contos. As obras serão publicadas semanalmente as terças-feiras.

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UMA LÁGRIMA DESCEU PELO ROSTO JOVEM. Mas não estava triste, pelo contrário, era uma reação normal por estar sentindo o vento bater no rosto já que a viseira do capacete estava aberta enquanto ele mantinha as mãos presas em garras na cintura do amigo enquanto o mesmo avançava veloz e livre pela extensa BR-101.

Sentia em muitos momentos que mesmo com seus vinte e três anos estava passando pelo inverno da vida, ao subir na moto, atravessar viadutos e fazer curvas fechadas, ele abria os braços e deixava o vento sacudir o velho casaco que vestia junto das preocupações, lançando-as para fora de si. Ali era a primavera da vida, mas não cheirava flores e sim mentos, suor e virilidade.

As luzes da cidade passavam por ele como estrelas cadentes amareladas, ficando para trás como fantasmas silenciosos. Era um amante noturno, um aficionado pelo frio vindo do litoral que só avançava sobre Nova Amsterdã durante a madrugada, depois que até mesmo os boêmios se retiravam para deitar a cabeça nos travesseiros e sonhar. Entravam em uma rua e saiam em outra, assistindo a cidade em um misto de prédios e construções históricas até os mais modernos como o estádio construído para a Copa do Mundo no Brasil em 2014.

Algumas pessoas falavam sobre o perigo daquela vida, mas eles não conseguiam parar de perseguir aquela emoção que fazia o coração bater um pouco mais rápido. Quem não vivia, não podia compreender a complexidade do prazer proporcionado pela adrenalina.

Kael Marques se apaixonava noite após noite pelos lanches de beira de estrada, moletons escuros com furos e quentes, chuvas da madrugada, cheiro de gasolina, cigarros, beijos sob a luz da lua e segredos revelados no escuro das 3AM.

Viveu com tanta intensidade em seus dias entregues a Nix que, quando a morte veio sobre seus amigos e ele, cedeu. Não havia o que fazer, podia ouvir os gritos, ver as luzes e após tatear o chão encontrou a mão do melhor amigo enquanto sentia o cano quente da moto pressionado contra a barriga. Os olhos pesaram e o túnel onde o acidente aconteceu começou a desfocar, a última lembrança era o misto de seu último segredo revelado ao melhor amigo e do caminhão que atingiu as motos.

Eu te…

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— …amo. — Edna B sentiu também uma lágrima escorrer pelo rosto.

O túnel estava frio e as paredes pichadas davam um tom pitoresco ao local. Seria estranho fazer isso de dia, então, quando o relógio marcou duas horas da manhã, a pequena comitiva saiu da pousada Maine e seguiram em um carro até o local.

— Eles eram jovens tentando viver um dia de cada vez. Sem pressa, sem amarras. — Falou para os dois homens que estavam ao lado.

Um deles era Adler Pinheiro, um amigo de infância formado em antropologia e teologia que residia ali mesmo em Nova Amsterdã, onde Edna havia morado até os vinte anos. Ele tinha pedido sua ajuda naquele caso especifico porque era ligado à sua noiva e o mesmo queria a melhor médium que conhecia. O outro, era esposo dela, Pedro B, com quem estava casada há cinco anos. Um advogado matemático também demonologista que dividia seu tempo entre o escritório de advocacia e as convocações que eram feitas, sempre o braço direito da mulher.

— Kael não sabe, Adler, que morreu. Está preso em uma repetição de sua última noite, atado às lembranças que o impedem de seguir em frente. Precisamos trazê-lo e fazer o mesmo compreender sua morte. — Edna declarou finalmente retirando a mão da parede úmida e olhando para o carro preto de quatro portas estacionado pouco mais à frente. — Tragam a bruxa, ela conseguirá puxá-lo até nós.

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Antônio Gomes

Antônio Gomes

Colaborar do Dinastia N. Um amante irremediável da cultura pop em todas as suas formas. Escritor e leitor voraz. Seguidor fiel do mestre Stephen King e filho dos anos noventa, sendo o sonho conturbado da realidade que ainda está aprendendo a dar os primeiros passos, é fácil me encontrar comendo batatas, assistindo séries ou escrevendo alguma história com plot twist.

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