Brasil pode “aproveitar” tensões comerciais entre EUA e China
Foto: Charles Ricardo / Pixabay

Brasil pode “aproveitar” tensões comerciais entre EUA e China

abril 11, 2018 0 Por Rafael Nicácio

A ameaça da China de impor tarifas sobre a soja dos EUA pode ser uma boa notícia para os ‘agricultores rivais’ no Brasil.

O espectro de uma guerra comercial iminente entre as maiores economias do mundo fez com que os preços da soja brasileira subissem – atingindo seu nível máximo em 21 meses, informa os analistas da Commerzbank.

Os agricultores brasileiros poderiam ser os vencedores de longo prazo se a China e os EUA se envolverem em uma guerra comercial. Na verdade, ao ameaçar a China com tantos impostos, o presidente dos EUA, Donald Trump, poderia apoiar involuntariamente as ambições do Brasil de dominar o mercado mundial de exportações agrícolas e os objetivos de Pequim de estreitar os laços com a América Latina.

A China já é o principal parceiro comercial do Brasil e está se tornando um grande investidor, tendo injetado quase 21 bilhões de dólares no Brasil no ano passado. A vizinha Argentina, o terceiro maior produtor de soja do mundo, também poderia se beneficiar.

importação da soja

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O Brasil produziu 114,1 milhões de toneladas de soja na safra 2016/17, das quais exportou para a China cerca de 47%. Enquanto isso, os EUA produziram 116,9 milhões de toneladas, das quais exportou para a China cerca de 31%. Juntamente com a Argentina, que produziu 57,8 milhões de toneladas no mesmo período, os três países produziram a maior parte da produção mundial de soja.

“A Argentina poderia ser outra opção para a China se quiser reduzir sua dependência dos EUA”, revelam os analistas. Gustavo López, que lidera a consultoria de Buenos Aires Agritrend, argumentou que, no curto prazo, se os EUA parassem de exportar soja para a China, o Brasil e a Argentina provavelmente se beneficiariam de um aumento nos preços.

“Mas, sendo a principal fornecedora mundial de produtos refinados, como óleo de soja e farinhas, a Argentina pode ser afetada pelo aumento da concorrência nesses mercados a médio e longo prazo, caso os EUA comecem a produzir esses produtos”, argumentou Lopez.

Em qualquer caso, Lopez questionou se a China tomaria medidas concretas sobre as tarifas de curto prazo, já que depende dos três produtores estrangeiros de soja. “A China não pode se dar ao luxo de depender apenas da Argentina e do Brasil”, disse ele.

safra de soja grãos

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Marcos da Rosa, presidente da Aprosoja Brasil, revelou ao El Financeiro que o Brasil tem capacidade para dobrar a produção de soja se estender as plantações para as vastas pastagens degradadas do país. “O Brasil tem capacidade de produção, e possui tecnologia e área para isso”, afirmou.

TS Lombard disse em seu relatório que uma possível tarifa chinesa sobre as importações de carne suína dos EUA também poderia beneficiar os produtores brasileiros de carne suína, embora eles ainda sejam fornecedores relativamente pequenos e suas exportações tenham sido afetadas por um escândalo interno relacionado às inspeções sanitárias. A indústria de carne brasileira também poderia se beneficiar.

A China tem antecipado esta associação mais próxima com fornecedores agrícolas brasileiros através de maiores investimentos na infra-estrutura arruinada do país latino-americano.

“No acordo mais importante, a China Merchants Porto adquiriu uma participação de 90 por cento do Terminal de Contêineres de Paranaguá, o segundo porto brasileiro mais ativo em termos de volume, 2,9 bilhões de reais (924 milhões de dólares)”, disse TS Lombard.

Mas outros alertam que, embora o Brasil viesse a ganhar em alguns setores, a reorganização do sistema de comércio multilateral do presidente Trump poderia ser prejudicial ao longo do tempo para a América Latina.

“A tática de Trump foi forçar os parceiros comerciais a entrar em negociações bilaterais e depois tentar forçá-los a fazer concessões”, disse Rodrigo Lima, diretor geral da Agroicone, uma consultoria de comércio e agricultura.

Os EUA pareciam dispostos a dar ao Brasil uma isenção das tarifas de aço, por exemplo, mas Washington gostaria de receber algo em troca, disseram analistas, como a entrega da estrela industrial brasileira, a fabricante de aeronaves comerciais Embraer, à Boeing. “Trump define uma posição extrema e a partir daí começa a negociar”, disse Lima.

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